O caderno de desenhos que substituiu a lâmina
Ela chegou à consulta de retorno com um caderno cheio de desenhos. Foi assim que descobri que, sozinha, sem que ninguém soubesse, ela tinha encontrado uma forma diferente de lidar com o que sentia.
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Narração em voz sintética.
Ela chegou à consulta de retorno com um caderno cheio de desenhos. Foi assim que descobri que, sozinha, sem que ninguém soubesse, ela tinha encontrado uma forma diferente de lidar com o que sentia.
Chamemos essa adolescente de Lorena. Quinze anos, identificada meses antes com sinais de automutilação, encaminhada para acompanhamento psicológico. Naquela consulta de retorno na Atenção Primária, ela parecia diferente — mais leve, mais disposta a falar.
Mostrou-me, com certo orgulho tímido, um caderno cheio de desenhos intensos, muitos deles retratando emoções difíceis de forma simbólica. Contou que, quando sentia o impulso de se machucar, tinha passado a desenhar — às vezes por horas, até a intensidade da emoção diminuir.
Uma estratégia que ela construiu sozinha
Lorena não tinha aprendido essa estratégia especificamente na terapia — tinha descoberto, meio por acaso, que desenhar ocupava suas mãos e sua mente de uma forma que aliviava a mesma tensão que antes só encontrava alívio na automutilação. O terapeuta, quando ela contou, tinha reforçado e ajudado a fortalecer essa estratégia.
Celebrei genuinamente com ela essa descoberta, reforçando que encontrar sua própria forma de lidar com a dor, mesmo que diferente do que qualquer manual sugeriria, tinha valor real. Continuamos acompanhando, com atenção a sinais de recaída, mas com uma base de esperança concreta construída pela própria adolescente.
O que esse encontro me ensinou
Estratégias de enfrentamento eficazes nem sempre vêm de fora — às vezes, com o apoio certo, a própria pessoa descobre o que funciona para ela. Reconhecer e validar essas descobertas genuínas, em vez de insistir apenas em protocolos padronizados, fortalece a autonomia e a confiança de quem está construindo seu próprio caminho de recuperação.
Relato composto, sem identificação de pessoas reais. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica.