O adolescente que tinha medo de ser quem era
Dezessete anos, trazido pela mãe por 'crise de ansiedade recorrente'. Só depois de algumas consultas é que a verdadeira fonte do sofrimento apareceu, e não era sobre ansiedade em si.
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Narração em voz sintética.
Dezessete anos, trazido pela mãe por 'crise de ansiedade recorrente'. Só depois de algumas consultas é que a verdadeira fonte do sofrimento apareceu, e não era sobre ansiedade em si.
Chamemos esse adolescente de Théo. Vinha à unidade com queixas físicas vagas e episódios de ansiedade intensa, sem causa aparente segundo a mãe. Nas primeiras consultas, respondia de forma evasiva, protegendo algo que ainda não estava pronto para dizer.
Numa consulta a sós, depois de várias tentativas de construir confiança, Théo finalmente disse: estava processando questões relacionadas à própria identidade de gênero, e tinha medo intenso de como a família reagiria se soubesse. O peso de esconder isso, somado ao medo de rejeição, estava na raiz da ansiedade.
Criando espaço sem pressa
Não empurrei Théo a contar para a família antes que estivesse pronto. Conversamos sobre recursos de apoio disponíveis, sobre a possibilidade de encaminhamento para psicoterapia especializada em identidade de gênero, e sobre construir, no seu próprio tempo, uma estratégia para eventualmente conversar com a mãe, se e quando ele sentisse segurança para isso.
O acompanhamento continuou, respeitando o ritmo dele. Meses depois, com apoio psicológico, Théo se sentiu preparado para uma primeira conversa com a mãe, mediada com cuidado.
O que esse encontro me ensinou
Sintomas de ansiedade em adolescentes às vezes escondem questões de identidade que a pessoa ainda não está pronta para verbalizar diretamente. Criar espaço seguro, sem pressa e sem pressão para revelação prematura, respeita o processo genuíno de cada pessoa em sua própria jornada.
Relato composto, sem identificação de pessoas reais. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica.