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Saúde Mental · Doutor Antônio Felipe
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Relatos da Prática

Quando o corpo da criança falava o que ela não conseguia dizer

Sete anos, terceiro atendimento em dois meses por dor de barriga antes da escola. Os exames, todos normais. A mãe, exausta de idas e vindas. A criança, que olhava para mim com um silêncio que pesava mais do que qualquer queixa.

Dr. Antônio Felipe 2 min de leitura
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Narração em voz sintética.

Nota sobre este relato: composição construída a partir de padrões recorrentes observados na prática clínica, sem corresponder a nenhuma pessoa real ou identificável. Nomes e detalhes são fictícios. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica.

Sete anos, terceiro atendimento em dois meses por dor de barriga antes da escola. Os exames, todos normais. A mãe, exausta de idas e vindas. A criança, que olhava para mim com um silêncio que pesava mais do que qualquer queixa.

Chamemos essa criança de Miguel. Sete anos, segundo a mãe sempre foi tranquilo, bom aluno, sem histórico de problemas de saúde. A primeira dor de barriga havia surgido dois meses antes, numa segunda-feira de manhã, pouco antes de sair para a escola. A segunda, também numa segunda-feira. A terceira, numa quinta-feira — mas o dia em que havia prova.

O padrão era claro quando olhado em conjunto, mas a mãe, cada vez mais preocupada com uma possível doença orgânica, não havia percebido a regularidade. Pedi que ela esperasse do lado de fora por alguns minutos enquanto conversava com Miguel.

Com a mãe fora, perguntei: "Miguel, você gosta de ir para a escola?" Ele ficou em silêncio. Depois, bem devagar, balançou a cabeça negativamente. Perguntei o que estava acontecendo lá. E ele contou — sobre um colega que o chamava de nomes feios todo dia, sobre ter medo de contar para a professora porque o menino havia dito que ficaria pior se ele contasse.

O corpo como porta-voz

Miguel não estava simulando. A dor de barriga era real — uma resposta física genuína à ansiedade real que ele vivia antes de cada ida para um ambiente que havia se tornado ameaçador. O corpo estava dizendo o que ele não sabia, ou não se sentia seguro, para dizer com palavras.

Conversamos com a mãe, orientamos sobre como abordar com a escola de forma a não expor Miguel a retaliações, e encaminhamos para avaliação psicológica. A escola foi receptiva. As dores de barriga foram desaparecendo ao longo das semanas seguintes.

O que esse encontro me ensinou

Queixas físicas recorrentes em crianças, especialmente com padrão associado a situações específicas, merecem investigação além dos exames laboratoriais. O corpo infantil é, muitas vezes, o único vocabulário disponível para um sofrimento que ainda não encontrou palavras.

Relato composto, sem identificação de pessoas reais. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica.

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