A crise que poderia ter sido evitada
Um relato sobre o que acontece quando o elo entre a urgência psiquiátrica e a atenção primária se rompe, por Dr. Antônio Felipe.
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Narração em voz sintética.
Ela chegou ao Pronto Atendimento Psiquiátrico contida por dois seguranças, em surto, gritando coisas que não faziam sentido para ninguém além dela mesma. Foi só quando consegui ler o histórico, com calma, que entendi: aquela crise tinha um caminho longo até chegar ali — e, em algum ponto desse caminho, alguém poderia ter feito diferente.
Chamemos essa mulher de Marina. Trinta e quatro anos, diagnóstico de transtorno bipolar havia oito, em acompanhamento — pelo menos no papel — pela Atenção Primária do seu território. O prontuário mostrava um padrão claro: consultas regulares durante um período, depois um intervalo cada vez maior entre elas, depois nada por seis meses.
Na conversa com a família, depois que ela já estava mais estável, entendi o que tinha acontecido naquele intervalo de silêncio. A medicação tinha acabado na farmácia da unidade básica de saúde, e ela não conseguiu uma nova receita a tempo. Foi tentando outro posto, em outro bairro, e lá disseram que precisava estar cadastrada naquela unidade. Voltou para a sua, e a médica que a acompanhava havia sido transferida — outra ainda não tinha assumido o posto. Marcou uma consulta com quem estava disponível, mas a agenda só tinha vaga para dois meses depois.
Dois meses sem medicação regular, para alguém com transtorno bipolar, é tempo mais que suficiente para uma descompensação se instalar.
Onde a rede se rompeu
Não houve um único erro grave, isolado, que explicasse essa crise. Houve uma sequência de pequenas falhas estruturais — falta de medicação, troca de profissional sem transição organizada, agenda sem espaço para urgências de saúde mental — que, somadas, deixaram Marina sem o suporte que ela precisava exatamente no momento em que mais precisava.
Quando ela chegou ao Pronto Atendimento, o que vivenciamos ali foi o desfecho mais dramático de um processo que começou muito antes, na ausência de continuidade do cuidado. Estabilizamos a crise aguda — isso fazemos bem, é o que sabemos fazer. Mas a pergunta que ficou comigo, depois, foi outra: como evitar que a próxima Marina chegue até aqui da mesma forma?
Conversei com a equipe da unidade básica dela, depois da alta, para entender melhor os gargalos e ajudar a desenhar um fluxo mais protegido para pacientes com transtornos graves em acompanhamento — prioridade na agenda, alerta quando a medicação está perto de faltar, transição mais cuidadosa quando há troca de profissional. Pequenas mudanças, mas que talvez evitem a próxima internação evitável.
O que esse encontro me ensinou
A linha entre estabilidade e crise, para muitos pacientes psiquiátricos, é mais fina e mais dependente da continuidade do cuidado do que costumamos admitir. Cada falha de sistema — uma agenda cheia, uma receita que não chegou a tempo — tem peso real na vida de alguém. Cuidar bem da crise importa. Mas cuidar para que a crise nem precise acontecer importa ainda mais.
Este relato é uma narrativa composta, construída a partir de padrões clínicos observados ao longo da prática profissional, sem identificar nenhuma pessoa real. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica, especialmente quanto ao sigilo profissional.