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Saúde Mental · Doutor Antônio Felipe
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Relatos da Prática

A crise que poderia ter sido evitada

Um relato sobre o que acontece quando o elo entre a urgência psiquiátrica e a atenção primária se rompe, por Dr. Antônio Felipe.

Dr. Antônio Felipe 3 min de leitura
Capa do artigo: A crise que poderia ter sido evitada

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Narração em voz sintética.

Nota sobre este relato: esta narrativa é uma composição construída a partir de padrões recorrentes observados na prática clínica, sem corresponder a uma pessoa real ou identificável. Nomes, contextos e detalhes específicos são fictícios. O objetivo é ilustrar, de forma humanizada, situações que se repetem no cuidado em saúde mental — respeitando integralmente o sigilo profissional.

Ela chegou ao Pronto Atendimento Psiquiátrico contida por dois seguranças, em surto, gritando coisas que não faziam sentido para ninguém além dela mesma. Foi só quando consegui ler o histórico, com calma, que entendi: aquela crise tinha um caminho longo até chegar ali — e, em algum ponto desse caminho, alguém poderia ter feito diferente.

Chamemos essa mulher de Marina. Trinta e quatro anos, diagnóstico de transtorno bipolar havia oito, em acompanhamento — pelo menos no papel — pela Atenção Primária do seu território. O prontuário mostrava um padrão claro: consultas regulares durante um período, depois um intervalo cada vez maior entre elas, depois nada por seis meses.

Na conversa com a família, depois que ela já estava mais estável, entendi o que tinha acontecido naquele intervalo de silêncio. A medicação tinha acabado na farmácia da unidade básica de saúde, e ela não conseguiu uma nova receita a tempo. Foi tentando outro posto, em outro bairro, e lá disseram que precisava estar cadastrada naquela unidade. Voltou para a sua, e a médica que a acompanhava havia sido transferida — outra ainda não tinha assumido o posto. Marcou uma consulta com quem estava disponível, mas a agenda só tinha vaga para dois meses depois.

Dois meses sem medicação regular, para alguém com transtorno bipolar, é tempo mais que suficiente para uma descompensação se instalar.

Onde a rede se rompeu

Não houve um único erro grave, isolado, que explicasse essa crise. Houve uma sequência de pequenas falhas estruturais — falta de medicação, troca de profissional sem transição organizada, agenda sem espaço para urgências de saúde mental — que, somadas, deixaram Marina sem o suporte que ela precisava exatamente no momento em que mais precisava.

Quando ela chegou ao Pronto Atendimento, o que vivenciamos ali foi o desfecho mais dramático de um processo que começou muito antes, na ausência de continuidade do cuidado. Estabilizamos a crise aguda — isso fazemos bem, é o que sabemos fazer. Mas a pergunta que ficou comigo, depois, foi outra: como evitar que a próxima Marina chegue até aqui da mesma forma?

Conversei com a equipe da unidade básica dela, depois da alta, para entender melhor os gargalos e ajudar a desenhar um fluxo mais protegido para pacientes com transtornos graves em acompanhamento — prioridade na agenda, alerta quando a medicação está perto de faltar, transição mais cuidadosa quando há troca de profissional. Pequenas mudanças, mas que talvez evitem a próxima internação evitável.

O que esse encontro me ensinou

A linha entre estabilidade e crise, para muitos pacientes psiquiátricos, é mais fina e mais dependente da continuidade do cuidado do que costumamos admitir. Cada falha de sistema — uma agenda cheia, uma receita que não chegou a tempo — tem peso real na vida de alguém. Cuidar bem da crise importa. Mas cuidar para que a crise nem precise acontecer importa ainda mais.

Este relato é uma narrativa composta, construída a partir de padrões clínicos observados ao longo da prática profissional, sem identificar nenhuma pessoa real. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica, especialmente quanto ao sigilo profissional.

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