Quando o cuidador da equipe também adoece
Um relato sobre o burnout de um colega de equipe de saúde, visto de dentro do próprio serviço, por Dr. Antônio Felipe.
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Narração em voz sintética.
Ela era a enfermeira mais dedicada da equipe — sempre a primeira a chegar, a última a sair, a que nunca dizia não a um paciente extra na agenda já cheia. Foi exatamente por isso que demorei a perceber o que estava acontecendo com ela.
Chamemos essa profissional de Enfermeira Patrícia. Trabalhávamos juntos na mesma unidade havia uns dois anos, e ela sempre tinha sido uma referência de competência e dedicação para toda a equipe — o tipo de colega que todo serviço de saúde gostaria de ter em quantidade.
Nos últimos meses, porém, algumas mudanças sutis começaram a aparecer. Ela ficava mais irritada com situações pequenas, que antes não a afetavam. Comentava, em tom que tentava parecer brincadeira, que "estava no piloto automático" durante os atendimentos. Em uma reunião de equipe, chorou ao falar sobre um caso de paciente, de um jeito que não era típico dela.
O colega que também precisava de cuidado
Numa tarde mais tranquila, convidei a Enfermeira Patrícia para um café, sem agenda formal, só para conversar. Perguntei, com sinceridade, como ela estava — não como profissional, mas como pessoa. A resposta inicial foi automática: "estou bem, só um pouco cansada".
Mas, conforme a conversa avançava, ela foi se permitindo dizer mais. Contou que vinha dormindo mal havia meses. Que sentia que não conseguia mais se conectar emocionalmente com os pacientes da mesma forma de antes — um distanciamento que a assustava, porque contrastava com a profissional que sempre tinha sido. Que, em casa, andava irritada com a própria família, sem entender muito bem por quê.
Reconheci ali um padrão de burnout em desenvolvimento — exatamente o tipo de esgotamento que, ironicamente, discutimos clinicamente com tanta frequência quando se trata de pacientes, mas que raramente reconhecemos em nós mesmos ou em nossos colegas mais próximos, até que o quadro já esteja avançado.
Conversamos sobre buscar apoio psicológico, sobre a possibilidade de ajustar temporariamente a carga de trabalho, e levei a discussão, de forma cuidadosa e com o consentimento dela, para a gestão da unidade — não para "denunciar" uma fragilidade, mas para buscar soluções estruturais que pudessem aliviar a sobrecarga que toda a equipe, na verdade, vinha enfrentando.
O que esse encontro me ensinou
Profissionais de saúde são, muitas vezes, os últimos a reconhecer sinais de adoecimento em si mesmos — treinados, como são, a identificar sofrimento nos outros, raramente aprendem a voltar esse mesmo olhar cuidadoso para dentro. Cuidar de colegas de equipe, com a mesma atenção que dedicamos aos pacientes, é parte essencial de qualquer ambiente de trabalho em saúde que pretenda ser sustentável de verdade.
Este relato é uma narrativa composta, construída a partir de padrões clínicos observados ao longo da prática profissional, sem identificar nenhuma pessoa real. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica, especialmente quanto ao sigilo profissional.