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Saúde Mental · Doutor Antônio Felipe
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Relatos da Prática

O empresário que negava o próprio esgotamento

Ele dizia que só precisava de um multivitamínico. Vinte anos construindo a própria empresa, e a ideia de que pudesse estar esgotado emocionalmente simplesmente não cabia na imagem que tinha de si mesmo.

Dr. Antônio Felipe 1 min de leitura
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Narração em voz sintética.

Nota sobre este relato: composição construída a partir de padrões recorrentes observados na prática clínica, sem corresponder a nenhuma pessoa real ou identificável. Nomes e detalhes são fictícios. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica.

Ele dizia que só precisava de um multivitamínico. Vinte anos construindo a própria empresa, e a ideia de que pudesse estar esgotado emocionalmente simplesmente não cabia na imagem que tinha de si mesmo.

Chamemos esse homem de Marcelo. Quarenta e sete anos, dono de uma empresa de médio porte, veio à consulta com queixas físicas persistentes — dores de cabeça frequentes, insônia, palpitações — pedindo exames e, se possível, "algum suplemento" que resolvesse rapidamente.

Os exames vieram normais. Na consulta de retorno, perguntei sobre sua rotina. Ele descreveu, com um misto de orgulho e cansaço evidente, dias de quinze horas de trabalho, sem férias havia três anos, decisões constantes que pesavam sozinho sobre seus ombros.

Quando o esgotamento não cabe na própria identidade

Marcelo tinha construído sua identidade profissional inteira sobre a ideia de resistência ilimitada. Admitir esgotamento parecia, para ele, admitir fraqueza incompatível com quem havia se tornado. Precisei apresentar o quadro de forma que não ameaçasse diretamente essa identidade — falando sobre sustentabilidade do negócio a longo prazo, não apenas sobre "descansar mais".

Aos poucos, ele aceitou buscar apoio psicológico, e começou, com relutância inicial, a delegar algumas responsabilidades que vinha carregando sozinho havia anos.

O que esse encontro me ensinou

Para pessoas cuja identidade está fortemente ligada à ideia de resistência e capacidade ilimitada, reconhecer esgotamento pode parecer ameaça existencial, não apenas admissão de cansaço. Apresentar o cuidado como investimento estratégico, não como fraqueza, às vezes é o caminho que funciona.

Relato composto, sem identificação de pessoas reais. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica.

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