Entre dois mundos
Um relato sobre o sofrimento de uma adolescente em torno das redes sociais, e o desafio de conversar sem julgamento, por Dr. Antônio Felipe.
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Narração em voz sintética.
A mãe trouxe a filha de catorze anos preocupada com "o vício no celular". A adolescente, sentada com os braços cruzados e os olhos fixos no chão, claramente não tinha vindo por vontade própria. A primeira tentativa de conversa, com a mãe presente, não foi a lugar nenhum.
Chamemos essa adolescente de Bia. Catorze anos, boa aluna até pouco tempo atrás, segundo a mãe, mas que nos últimos meses tinha se isolado cada vez mais no próprio quarto, sempre com o celular, e cujas notas escolares tinham começado a cair de forma preocupante.
Quando perguntei, ainda com a mãe na sala, sobre o uso do celular, Bia deu respostas curtas, monossilábicas, claramente fechada. Decidi, então, propor que conversássemos só nós dois por alguns minutos — prática que costumo adotar com adolescentes, respeitando o sigilo apropriado à idade, mas explicando isso com transparência para a família.
O que apareceu quando a porta se fechou
Sozinha comigo, Bia ainda demorou para se abrir. Mas, depois de alguns minutos de silêncio e perguntas leves, sem pressa, ela começou a falar — sobre como se sentia constantemente comparando sua vida com a de outras adolescentes nas redes sociais, sobre o quanto se sentia "menos" do que as colegas que pareciam ter vidas perfeitas online, sobre as noites em que ficava rolando o celular até tarde, sentindo uma mistura de ansiedade e vazio que ela mesma não sabia explicar.
O isolamento no quarto não era, como a mãe imaginava, sobre "vício no celular" no sentido simples do termo. Era uma forma de fugir de uma ansiedade social que tinha crescido muito, alimentada justamente pela comparação constante que as redes sociais proporcionavam. Quanto mais ansiosa ela ficava ao ver a vida (editada, seletiva) das colegas, mais se isolava do convívio presencial — e mais tempo passava online, num ciclo que se alimentava sozinho.
Conversamos sobre isso, sem julgamento sobre o uso das redes em si, mas explorando como ela se sentia em cada momento daquele ciclo. Depois, com o consentimento dela, trouxe a mãe de volta para conversarmos juntos — não para "confiscar o celular", como a mãe inicialmente queria, mas para construir, os três, uma forma diferente de lidar com a situação.
Encaminhei Bia para acompanhamento psicológico, e orientei a mãe sobre como conversar sobre o tema sem soar como vigilância ou punição. Algumas semanas depois, em retorno, a mãe relatou que as conversas em casa tinham mudado de tom — menos confronto, mais abertura — e que Bia tinha voltado a sair com algumas amigas, ainda que aos poucos.
O que esse encontro me ensinou
O que parece, à primeira vista, "vício em celular" frequentemente esconde um sofrimento mais profundo, que o adolescente não tem ainda repertório para nomear sozinho. Abrir espaço de conversa sem a presença dos responsáveis, com respeito genuíno à privacidade própria da idade, muitas vezes é o que permite que esse sofrimento finalmente apareça — e possa, então, receber o cuidado certo.
Este relato é uma narrativa composta, construída a partir de padrões clínicos observados ao longo da prática profissional, sem identificar nenhuma pessoa real. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica, especialmente quanto ao sigilo profissional.