O estudante que veio pedir ajuda para um paciente
Era interno de medicina, segundo ano de residência. Veio até mim durante um plantão para discutir um caso difícil. Mas conforme a conversa avançou, ficou claro que o caso difícil era ele mesmo.
Ouvir o artigo completo
Narração em voz sintética.
Era interno de medicina, segundo ano de residência. Veio até mim durante um plantão para discutir um caso difícil. Mas conforme a conversa avançou, ficou claro que o caso difícil era ele mesmo.
Chamemos esse médico jovem de Dr. Caio. Vinte e oito anos, residente de clínica médica, havia começado a fazer plantões no PA Psiquiátrico como parte da rotação obrigatória. Naquela noite, me procurou com uma dúvida técnica sobre um paciente que estava atendendo — escolha de medicação, conduta em caso de agitação.
Respondemos sobre o paciente. Mas algo no jeito de ele perguntar, no cuidado excessivo com cada detalhe, na tensão nos ombros mesmo enquanto conversávamos sobre algo relativamente simples, me fez pausar e perguntar, de forma direta: "Caio, como você está? Não o paciente — você."
Ele demorou. Depois disse que havia dormido, nas últimas duas semanas, uma média de quatro horas por noite. Que estava com dificuldade de se concentrar nas consultas. Que havia cometido um erro menor alguns dias antes e que pensava nisso constantemente. Que estava com medo de que alguém percebesse que ele "não sabia nada".
A síndrome do impostor em formação
O que Dr. Caio descrevia tinha nome familiar — síndrome do impostor combinada com sinais claros de esgotamento precoce. Não era raro. Era, na verdade, incrivelmente comum entre residentes, e incrivelmente raramente verbalizado.
Conversamos longamente naquela noite. Orientei que buscasse apoio psicológico — não como obrigação, mas como necessidade real. Falamos sobre como a formação médica frequentemente confunde resistência com competência, e sobre o custo disso a longo prazo. Dr. Caio saiu daquela conversa, segundo me disse depois, sentindo-se menos sozinho do que havia se sentido em meses.
O que esse encontro me ensinou
Residentes e estudantes de medicina chegam ao sistema de saúde com uma vulnerabilidade raramente nomeada: a de precisar parecer que sabem, que aguentam, que estão bem — enquanto aprendem, erram, e carregam o peso de cuidar de outros sem ter aprendido ainda a cuidar de si mesmos. Perguntar 'como você está?' a um colega em formação pode ser o início de algo importante.
Relato composto, sem identificação de pessoas reais. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica.