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Saúde Mental · Doutor Antônio Felipe
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Relatos da Prática

A gestante que tinha medo de amar demais

Ela evitava, de forma quase supersticiosa, se permitir sentir alegria com a gravidez. Uma perda anterior tinha deixado uma marca que o pré-natal, sozinho, não estava conseguindo endereçar.

Dr. Antônio Felipe 2 min de leitura
Capa do artigo: A gestante que tinha medo de amar demais

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Narração em voz sintética.

Nota sobre este relato: composição construída a partir de padrões recorrentes observados na prática clínica, sem corresponder a nenhuma pessoa real ou identificável. Nomes e detalhes são fictícios. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica.

Ela evitava, de forma quase supersticiosa, se permitir sentir alegria com a gravidez. Uma perda anterior tinha deixado uma marca que o pré-natal, sozinho, não estava conseguindo endereçar.

Chamemos essa mulher de Juliana. Grávida de vinte semanas, com histórico de uma perda gestacional dois anos antes. Durante as consultas de pré-natal, o que mais chamava atenção não era nenhum problema clínico, mas a distância emocional dela em relação à própria gravidez.

Ela evitava comprar roupas de bebê, evitava decorar o quarto, evitava até mesmo se permitir imaginar o futuro com o filho — como se qualquer envolvimento emocional fosse um risco a mais de sofrimento, caso algo desse errado novamente.

O medo disfarçado de cautela

Juliana não estava sendo "fria" com a própria gestação — estava se protegendo, da única forma que conseguia, de reviver uma dor que havia marcado profundamente sua vida. O medo de amar e perder novamente estava maior do que a capacidade de simplesmente viver a gestação presente.

Encaminhei para acompanhamento psicológico com foco em saúde mental perinatal, e mantive acompanhamento próximo durante todo o pré-natal, validando esse medo sem forçá-la a "superá-lo" antes do tempo dela. Aos poucos, com apoio profissional, Juliana foi se permitindo, com cautela, se conectar mais com a gestação atual.

O que esse encontro me ensinou

Gestações após perda gestacional carregam uma camada emocional específica de medo antecipatório que raramente é abordada apenas no cuidado obstétrico padrão. Reconhecer esse padrão, e encaminhar para suporte psicológico especializado, protege tanto a saúde mental materna quanto a construção do vínculo com a nova gestação.

Relato composto, sem identificação de pessoas reais. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica.

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