A primeira crise de pânico que pareceu o fim do mundo
Ela tinha certeza absoluta de que estava tendo um infarto. Vinte e três anos, sem nenhum histórico cardíaco, mas o coração disparado e a sensação de morte iminente eram reais demais para duvidar.
Ouvir o artigo completo
Narração em voz sintética.
Ela tinha certeza absoluta de que estava tendo um infarto. Vinte e três anos, sem nenhum histórico cardíaco, mas o coração disparado e a sensação de morte iminente eram reais demais para duvidar.
Chamemos essa jovem de Camila. Chegou ao PA trazida pelos colegas de trabalho, no meio de uma reunião, com sintomas que ela descrevia como certeza de estar morrendo. Os exames cardíacos, feitos rapidamente por segurança, vieram todos normais.
Quando expliquei que se tratava, muito provavelmente, de um ataque de pânico, ela pareceu confusa e até um pouco ofendida — como se eu estivesse dizendo que aquilo "não era real". Precisei explicar com cuidado que o que ela sentiu era absolutamente real, fisicamente intenso, só não tinha origem cardíaca.
Validando sem minimizar
Camila contou, então, que vinha de meses de sobrecarga extrema no trabalho, sem folgas reais, dormindo mal. O corpo, de alguma forma, tinha encontrado essa forma dramática de sinalizar que algo precisava mudar.
Orientei sobre a natureza do transtorno do pânico, encaminhei para acompanhamento e psicoterapia, e conversamos sobre a sobrecarga de trabalho que provavelmente contribuía para o quadro. Ela saiu ainda assustada, mas com informação que ajudou a reduzir o medo de que aquilo pudesse se repetir sem explicação.
O que esse encontro me ensinou
Um primeiro ataque de pânico é assustador o suficiente para parecer emergência de vida ou morte — e, para quem vive, é uma experiência genuinamente avassaladora. Validar essa intensidade, ao mesmo tempo em que se explica a natureza do quadro, ajuda o paciente a não se sentir descrente ou envergonhado pelo que sentiu.
Relato composto, sem identificação de pessoas reais. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica.