O medo do remédio
Um relato sobre a resistência de um paciente à medicação psiquiátrica, e o processo de construir confiança, por Dr. Antônio Felipe.
Ouvir o artigo completo
Narração em voz sintética.
"Doutor, eu prefiro sofrer do meu jeito do que virar outra pessoa com esse remédio." Foi a frase que ouvi, com firmeza quase desafiadora, na segunda consulta com aquela paciente — e que me fez entender que ali não bastava insistir na prescrição.
Chamemos essa mulher de Cristina. Quarenta e um anos, professora, com um quadro depressivo moderado bem caracterizado: tristeza persistente, perda de interesse generalizada, dificuldade de concentração que já afetava o trabalho. Tecnicamente, o caso pedia avaliação para tratamento medicamentoso, combinado com psicoterapia.
Mas Cristina trazia, junto com os sintomas, um conjunto sólido de crenças sobre medicação psiquiátrica: tinha uma tia que, segundo a família contava, "nunca mais foi a mesma" depois de começar a tomar antidepressivo, décadas atrás. Tinha lido histórias na internet sobre "dependência para a vida toda". E carregava, como muitos pacientes, a ideia de que precisar de remédio significava ser fraca demais para lidar com a própria vida.
O que não adiantava fazer
Minha primeira tentativa, naquela segunda consulta, foi explicar tecnicamente por que os medos dela não correspondiam à realidade da maioria dos tratamentos modernos. Ela ouviu educadamente, mas saiu da consulta do mesmo jeito que entrou — decidida a não considerar medicação, disposta a "tentar resolver sozinha".
Nas semanas seguintes, sem tratamento, o quadro de Cristina não melhorou. Ela voltou, ainda resistente, mas visivelmente mais cansada da própria luta. Dessa vez, mudei de abordagem: em vez de argumentar tecnicamente contra os medos dela, perguntei mais sobre eles. Sobre a tia. Sobre o que especificamente a preocupava em "virar outra pessoa".
Foi conversando sobre isso, sem pressa de chegar logo numa prescrição, que ela foi, pouco a pouco, separando o medo genuíno da informação real. Expliquei que, se em algum momento ela sentisse qualquer coisa parecida com o que descrevia ter visto na tia, isso seria motivo imediato para reavaliarmos juntos — ela não precisaria "aguentar calada" um efeito que não fazia sentido para ela.
Cristina decidiu, por fim, tentar o tratamento — não porque eu a convenci com argumentos técnicos, mas porque construímos, juntos, espaço suficiente de confiança para que ela se sentisse segura de que não estaria entregando o controle da própria vida a um remédio, mas ganhando uma ferramenta a mais, sob sua própria supervisão e a minha, para lidar com o que estava sentindo.
O que esse encontro me ensinou
Medo de medicação psiquiátrica raramente se resolve com mais informação técnica isoladamente. Por trás da resistência, quase sempre existe uma história — de família, de cultura, de experiência vivida ou ouvida — que precisa ser escutada antes de qualquer argumento fazer sentido. Construir confiança, nesses casos, é tão parte do tratamento quanto a própria prescrição.
Este relato é uma narrativa composta, construída a partir de padrões clínicos observados ao longo da prática profissional, sem identificar nenhuma pessoa real. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica, especialmente quanto ao sigilo profissional.