Pular para o conteúdo
Saúde Mental · Doutor Antônio Felipe
Todos os artigos
Relatos da Prática

O medo do remédio

Um relato sobre a resistência de um paciente à medicação psiquiátrica, e o processo de construir confiança, por Dr. Antônio Felipe.

Dr. Antônio Felipe 3 min de leitura
Capa do artigo: O medo do remédio

Ouvir o artigo completo

Narração em voz sintética.

Nota sobre este relato: esta narrativa é uma composição construída a partir de padrões recorrentes observados na prática clínica, sem corresponder a uma pessoa real ou identificável. Nomes, contextos e detalhes específicos são fictícios. O objetivo é ilustrar, de forma humanizada, situações que se repetem no cuidado em saúde mental — respeitando integralmente o sigilo profissional.

"Doutor, eu prefiro sofrer do meu jeito do que virar outra pessoa com esse remédio." Foi a frase que ouvi, com firmeza quase desafiadora, na segunda consulta com aquela paciente — e que me fez entender que ali não bastava insistir na prescrição.

Chamemos essa mulher de Cristina. Quarenta e um anos, professora, com um quadro depressivo moderado bem caracterizado: tristeza persistente, perda de interesse generalizada, dificuldade de concentração que já afetava o trabalho. Tecnicamente, o caso pedia avaliação para tratamento medicamentoso, combinado com psicoterapia.

Mas Cristina trazia, junto com os sintomas, um conjunto sólido de crenças sobre medicação psiquiátrica: tinha uma tia que, segundo a família contava, "nunca mais foi a mesma" depois de começar a tomar antidepressivo, décadas atrás. Tinha lido histórias na internet sobre "dependência para a vida toda". E carregava, como muitos pacientes, a ideia de que precisar de remédio significava ser fraca demais para lidar com a própria vida.

O que não adiantava fazer

Minha primeira tentativa, naquela segunda consulta, foi explicar tecnicamente por que os medos dela não correspondiam à realidade da maioria dos tratamentos modernos. Ela ouviu educadamente, mas saiu da consulta do mesmo jeito que entrou — decidida a não considerar medicação, disposta a "tentar resolver sozinha".

Nas semanas seguintes, sem tratamento, o quadro de Cristina não melhorou. Ela voltou, ainda resistente, mas visivelmente mais cansada da própria luta. Dessa vez, mudei de abordagem: em vez de argumentar tecnicamente contra os medos dela, perguntei mais sobre eles. Sobre a tia. Sobre o que especificamente a preocupava em "virar outra pessoa".

Foi conversando sobre isso, sem pressa de chegar logo numa prescrição, que ela foi, pouco a pouco, separando o medo genuíno da informação real. Expliquei que, se em algum momento ela sentisse qualquer coisa parecida com o que descrevia ter visto na tia, isso seria motivo imediato para reavaliarmos juntos — ela não precisaria "aguentar calada" um efeito que não fazia sentido para ela.

Cristina decidiu, por fim, tentar o tratamento — não porque eu a convenci com argumentos técnicos, mas porque construímos, juntos, espaço suficiente de confiança para que ela se sentisse segura de que não estaria entregando o controle da própria vida a um remédio, mas ganhando uma ferramenta a mais, sob sua própria supervisão e a minha, para lidar com o que estava sentindo.

O que esse encontro me ensinou

Medo de medicação psiquiátrica raramente se resolve com mais informação técnica isoladamente. Por trás da resistência, quase sempre existe uma história — de família, de cultura, de experiência vivida ou ouvida — que precisa ser escutada antes de qualquer argumento fazer sentido. Construir confiança, nesses casos, é tão parte do tratamento quanto a própria prescrição.

Este relato é uma narrativa composta, construída a partir de padrões clínicos observados ao longo da prática profissional, sem identificar nenhuma pessoa real. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica, especialmente quanto ao sigilo profissional.

Quer conversar sobre isso?

Este texto é informativo e não substitui uma avaliação individual. Se você se reconheceu em algo aqui, agende uma consulta.

Agendar avaliação

Sua opinião é fundamental

Sua experiência ou visão sobre este tema pode ajudar outras pessoas e equipes. Compartilhe sua opinião, dúvida ou relato abaixo.

Este conteúdo foi útil para você?

Como este tema se aplica a você?

Preciso de ajuda agora

Se você está em sofrimento intenso ou em risco, procure ajuda agora. Ligação gratuita.

CVV — 188 Apoio emocional, 24 h SAMU — 192 Emergência médica