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Saúde Mental · Doutor Antônio Felipe
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Relatos da Prática

O ciclo que ela achava que era só falta de força de vontade

Ela se descrevia como 'sem disciplina nenhuma'. Fazia dieta rigorosa por dias, depois comia descontroladamente, depois se punia com dieta ainda mais restrita. Um ciclo que ela não conseguia nomear como algo além de fraqueza pessoal.

Dr. Antônio Felipe 2 min de leitura
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Narração em voz sintética.

Nota sobre este relato: composição construída a partir de padrões recorrentes observados na prática clínica, sem corresponder a nenhuma pessoa real ou identificável. Nomes e detalhes são fictícios. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica.

Ela se descrevia como 'sem disciplina nenhuma'. Fazia dieta rigorosa por dias, depois comia descontroladamente, depois se punia com dieta ainda mais restrita. Um ciclo que ela não conseguia nomear como algo além de fraqueza pessoal.

Chamemos essa mulher de Adriana. Trinta e seis anos, veio à consulta pedindo orientação sobre "uma dieta que realmente funcionasse", frustrada com décadas de tentativas que sempre terminavam, segundo ela, em "fracasso por falta de força de vontade".

Ao explorar com mais detalhe o padrão, ficou claro que não era simplesmente dificuldade de manter dieta — era um ciclo bem definido de restrição severa seguida de compulsão alimentar intensa, seguida de culpa profunda, que a levava a restringir ainda mais, reiniciando o ciclo.

Nomeando o que a vergonha escondia

Adriana nunca tinha ouvido falar em transtorno de compulsão alimentar periódica, e muito menos considerado que seu padrão pudesse ser uma condição reconhecida, não uma falha pessoal de caráter. A vergonha que sentia impedia que ela buscasse essa informação por conta própria.

Expliquei o que caracteriza o transtorno, deixando claro que dietas restritivas repetidas, na verdade, tendem a alimentar o ciclo em vez de resolvê-lo. Encaminhei para acompanhamento psicológico especializado, sem qualquer orientação de dieta restritiva adicional, que só reforçaria o padrão.

O que esse encontro me ensinou

Muitas pessoas vivem, por anos, ciclos de restrição e compulsão alimentar sem nunca ter ouvido que isso tem nome clínico reconhecido, tratando o próprio sofrimento como falha pessoal de disciplina. Nomear o padrão com precisão técnica, sem julgamento, é frequentemente o primeiro passo real para interromper um ciclo que dietas sucessivas, paradoxalmente, apenas alimentam.

Relato composto, sem identificação de pessoas reais. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica.

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