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Saúde Mental · Doutor Antônio Felipe
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Relatos da Prática

O paciente que o PA já conhecia de cor

Décima terceira vez em oito meses. A equipe já sabia seu nome, seu leito preferido, até a ordem em que ele contava a própria história. Ninguém, porém, tinha perguntado por que ele sempre voltava.

Dr. Antônio Felipe 1 min de leitura
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Narração em voz sintética.

Nota sobre este relato: composição construída a partir de padrões recorrentes observados na prática clínica, sem corresponder a nenhuma pessoa real ou identificável. Nomes e detalhes são fictícios. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica.

Décima terceira vez em oito meses. A equipe já sabia seu nome, seu leito preferido, até a ordem em que ele contava a própria história. Ninguém, porém, tinha perguntado por que ele sempre voltava.

Chamemos esse homem de Wagner. Trinta e nove anos, transtorno de ansiedade generalizada com episódios recorrentes de crise intensa, sempre atendido, sempre medicado, sempre liberado com orientação de retorno ambulatorial — que ele nunca cumpria.

Naquela décima terceira vez, em vez de repetir o protocolo padrão, sentei com ele por mais tempo. Perguntei diretamente: "Wagner, o que está impedindo você de ir às consultas de retorno?"

A barreira que ninguém tinha perguntado

Ele explicou, com certo constrangimento, que não sabia ler bem, e os papéis de encaminhamento, cheios de termos técnicos e endereços diferentes a cada vez, o confundiam. Tinha vergonha de admitir isso, então simplesmente desistia e esperava a próxima crise para voltar ao lugar que já conhecia — o PA.

Reformulamos o encaminhamento em linguagem simples, com apoio de um agente comunitário para acompanhá-lo fisicamente até a primeira consulta na unidade de referência. Meses depois, Wagner tinha, pela primeira vez, mantido acompanhamento contínuo fora do PA.

O que esse encontro me ensinou

Barreiras de acesso ao cuidado nem sempre são visíveis ou óbvias — analfabetismo funcional, dificuldade de locomoção, medo de burocracia, podem impedir silenciosamente que alguém siga um encaminhamento aparentemente simples. Perguntar diretamente o que está impedindo o retorno pode revelar soluções concretas e simples.

Relato composto, sem identificação de pessoas reais. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica.

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