O paciente que ninguém via
Um relato sobre como o sofrimento psíquico pode se esconder por anos atrás de queixas físicas repetidas, por Dr. Antônio Felipe.
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Narração em voz sintética.
Ele já tinha passado por mim umas seis vezes. Sempre a mesma dor nas costas, sempre os mesmos exames "normais", sempre a mesma receita de anti-inflamatório que parecia nunca resolver de verdade.
Chamemos esse homem de Senhor José. Sessenta e poucos anos, trabalhador da construção civil havia décadas, daquele tipo de paciente que chega à consulta já com a queixa pronta, objetiva, sem espaço para muito mais: "doutor, é a coluna, de novo". E, de fato, a coluna dele tinha motivo real para doer — anos de esforço físico deixam marcas concretas no corpo.
Mas alguma coisa não fechava. A intensidade da dor que ele relatava não combinava direito com os exames de imagem, que mostravam alterações discretas, do tipo que metade da população acima dos cinquenta também tem, sem necessariamente sentir tanto. E havia algo no jeito dele de contar a mesma história, quase sempre com as mesmas palavras, que me fez decidir, naquela sexta consulta, fazer uma pergunta diferente.
"Senhor José, e como tem estado o sono?"
Ele me olhou como se a pergunta não tivesse nada a ver com o motivo da consulta. Hesitou. Disse que dormia mal, mas "isso não tem nada a ver com a coluna, doutor". Continuei perguntando — sobre o apetite, sobre o ânimo, sobre como estavam as coisas em casa desde que tinha parado de trabalhar por causa da dor.
Foi aí que a história começou a se desenrolar de verdade. O afastamento do trabalho, que ele vivia como uma humilhação silenciosa. A sensação de ser um peso para a família. As noites em que ficava deitado, olhando para o teto, pensando que não servia mais para nada. Ele nunca tinha contado isso a ninguém — nem à mulher, achando que "homem não fala dessas coisas".
O que estava por trás da dor
O Senhor José tinha um quadro depressivo significativo, instalado havia tempo, que se expressava quase inteiramente através do corpo. A dor nas costas era real — mas o sofrimento que a intensificava, que a tornava quase insuportável, vinha de outro lugar, que nenhum exame de imagem conseguiria capturar.
Não é incomum. Na Atenção Primária, vemos isso com frequência maior do que se imagina: sofrimento psíquico que se traduz em dor física, em fadiga, em queixas que parecem não ter fim, porque a pessoa não tem repertório — ou permissão social — para nomear o que sente de outra forma.
Encaminhamos o Senhor José para acompanhamento psicológico, ajustamos o manejo da dor física com uma abordagem mais integrada, e ele continuou vindo às consultas — agora falando de coisas que iam muito além da coluna. Meses depois, numa consulta de rotina, ele me disse algo que guardo até hoje: "doutor, a dor nas costas continua, mas o peso que eu carregava aqui dentro diminuiu bastante".
O que esse encontro me ensinou
Quantos "Senhores José" passam pelos consultórios de atenção primária todos os dias, repetindo a mesma queixa física, ano após ano, sem que ninguém pergunte sobre o sono, o ânimo, o que está acontecendo em casa? A pergunta certa, no momento certo, pode revelar um sofrimento inteiro que estava esperando, silenciosamente, para ser visto.
Este relato é uma narrativa composta, construída a partir de padrões clínicos observados ao longo da prática profissional, sem identificar nenhuma pessoa real. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica, especialmente quanto ao sigilo profissional.