Pular para o conteúdo
Saúde Mental · Doutor Antônio Felipe
Todos os artigos
Relatos da Prática

O tabaco que ninguém perguntava sobre

Um relato sobre a identificação de uma dependência de nicotina subestimada havia anos, por Dr. Antônio Felipe.

Dr. Antônio Felipe 3 min de leitura
Capa do artigo: O tabaco que ninguém perguntava sobre

Ouvir o artigo completo

Narração em voz sintética.

Nota sobre este relato: esta narrativa é uma composição construída a partir de padrões recorrentes observados na prática clínica, sem corresponder a uma pessoa real ou identificável. Nomes, contextos e detalhes específicos são fictícios. O objetivo é ilustrar, de forma humanizada, situações que se repetem no cuidado em saúde mental — respeitando integralmente o sigilo profissional.

Trinta e dois anos fumando, e nenhuma consulta médica anterior, segundo ele mesmo contou, tinha realmente perguntado sobre isso com profundidade. Sempre uma pergunta de rotina, sempre uma resposta rápida, sempre seguindo para o próximo tópico.

Chamemos esse homem de Seu Edvaldo. Cinquenta e oito anos, fumante desde a adolescência, vinha à unidade para acompanhamento de hipertensão e, mais recentemente, por uma tosse persistente que o preocupava. O tabagismo constava em seu prontuário havia anos, sempre anotado, raramente discutido em profundidade.

Naquele dia, decidi não simplesmente anotar "tabagista" e seguir adiante. Perguntei a ele há quanto tempo fumava, quantos cigarros por dia, e — a pergunta que pareceu pegá-lo de surpresa — como ele se sentia em relação a esse hábito.

O que estava por trás de décadas de cigarro

Seu Edvaldo, inicialmente na defensiva, foi se abrindo aos poucos. Contou que já tinha tentado parar de fumar diversas vezes ao longo da vida, sempre sem sucesso duradouro. Que sentia vergonha disso, como se fosse uma falha pessoal de força de vontade. Que, mais recentemente, vinha fumando ainda mais, coincidindo com um período de estresse intenso no trabalho e dificuldades financeiras na família.

Expliquei a ele, com cuidado, que dependência de nicotina é reconhecida como uma das formas mais persistentes de dependência química — não por falta de força de vontade, mas por mecanismos neurobiológicos reais, que tornam a cessação genuinamente difícil sem apoio adequado. Essa simples informação pareceu aliviar, ainda que parcialmente, uma vergonha que ele carregava havia décadas.

Conversamos sobre as opções de apoio disponíveis — desde grupos de cessação tabágica oferecidos pela rede pública, até a possibilidade de suporte farmacológico, quando indicado, e acompanhamento psicológico para lidar com o estresse que parecia alimentar o hábito naquele momento específico da vida dele.

Seu Edvaldo não parou de fumar imediatamente — processos de cessação tabágica raramente são lineares. Mas, pela primeira vez em décadas, segundo ele mesmo relatou meses depois, sentiu que tinha alguém genuinamente interessado em ajudá-lo com aquilo, e não apenas anotando o hábito como mais um dado de rotina no prontuário.

O que esse encontro me ensinou

Por ser legal e socialmente normalizado, o tabagismo às vezes recebe menos atenção clínica profunda do que outras dependências — tratado como um dado de prontuário, não como um sofrimento real que merece escuta e apoio genuínos. Perguntar com profundidade, em vez de apenas registrar o hábito, pode abrir a porta para um processo de cessação que décadas de anotações superficiais nunca conseguiram iniciar.

Este relato é uma narrativa composta, construída a partir de padrões clínicos observados ao longo da prática profissional, sem identificar nenhuma pessoa real. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica, especialmente quanto ao sigilo profissional.

Quer conversar sobre isso?

Este texto é informativo e não substitui uma avaliação individual. Se você se reconheceu em algo aqui, agende uma consulta.

Agendar avaliação

Sua opinião é fundamental

Sua experiência ou visão sobre este tema pode ajudar outras pessoas e equipes. Compartilhe sua opinião, dúvida ou relato abaixo.

Este conteúdo foi útil para você?

Como este tema se aplica a você?

Preciso de ajuda agora

Se você está em sofrimento intenso ou em risco, procure ajuda agora. Ligação gratuita.

CVV — 188 Apoio emocional, 24 h SAMU — 192 Emergência médica