A última consulta antes de desistir
Um relato sobre um paciente que já tinha decidido abandonar o tratamento, e o que o fez permanecer, por Dr. Antônio Felipe.
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Narração em voz sintética.
"Essa é a última vez que eu venho aqui." Ele disse isso sem drama, quase com cansaço, como quem já tinha decidido algo e só estava cumprindo um protocolo final antes de seguir esse plano. Não estava falando sobre o atendimento. Estava falando sobre a própria vida.
Chamemos esse homem de Rogério. Vinte e nove anos, trazido ao Pronto Atendimento pela terceira vez em poucos meses, sempre por crises depressivas intensas, sempre resistindo a qualquer continuidade de tratamento depois da alta. Tinha um histórico de abandonar acompanhamento psiquiátrico repetidamente, alegando que "nada funcionava mesmo".
Naquela noite, ele chegou trazido pelo irmão, depois de mencionar, em uma ligação, que "já tinha decidido o que ia fazer". A frase que ele repetiu na consulta — sobre aquela ser a última vez — carregava um peso que eu não podia ignorar: não estava falando do pronto atendimento, estava falando de desistir de viver.
O que mudou naquela conversa
Diferente das vezes anteriores, em que a abordagem tinha sido mais técnica e protocolar — avaliação de risco, medicação, orientação de alta — decidi, naquela noite, fazer algo diferente: perguntei a Rogério, com genuína curiosidade, por que ele achava que o tratamento "nunca funcionava".
Ele começou a falar sobre as vezes anteriores: medicações que pareciam não fazer efeito, consultas de retorno que ele sentia como burocráticas, sem ninguém realmente parando para entender o que estava por trás da sua dor recorrente. Contou sobre um trauma de infância que nunca tinha sido investigado em nenhum dos atendimentos anteriores, sempre focados em sintomas, nunca na história que os sustentava.
Não prometi que dessa vez seria diferente — promessas vazias não costumam convencer alguém que já perdeu a confiança no processo. Mas expliquei, com honestidade, que aquele trauma que ele mencionara, se nunca tinha sido trabalhado terapeuticamente, talvez explicasse por que o tratamento anterior, focado apenas em medicação, não tinha sido suficiente.
Construímos, juntos, um plano diferente daquele que ele já tinha tentado e abandonado tantas vezes: encaminhamento específico para psicoterapia com foco em trauma, além do acompanhamento psiquiátrico, e um retorno de seguimento mais próximo do que o padrão, justamente para reconstruir a confiança dele no processo. Ele saiu daquela noite ainda em sofrimento, mas, segundo ele mesmo disse, "com uma razão diferente para tentar mais uma vez".
O que esse encontro me ensinou
Quando um paciente diz que vai desistir do tratamento, vale a pena perguntar por quê — genuinamente, sem pressa de simplesmente reforçar a importância de continuar. Muitas vezes, por trás do "nada funciona", existe uma peça importante da história que nunca foi de fato ouvida ou tratada. Reconstruir essa peça, junto com o paciente, pode ser exatamente o que falta para que ele encontre razão para continuar tentando.
Este relato é uma narrativa composta, construída a partir de padrões clínicos observados ao longo da prática profissional, sem identificar nenhuma pessoa real. Elaborado em conformidade com o Código de Ética Médica, especialmente quanto ao sigilo profissional.